Quando a casa do Ricardo pegou fogo

Quando voltei para o Brasil passei um tempo no Paraná, com minha mãe e minha família e depois subi para a Bahia. Trancoso me chamava. Eu estava morrendo de saudades e não via a hora de chegar.

O tempo parecia que havia parado no vilarejo. A maior novidade era que agora não se precisava mais descer e subir a ladeira levando lata d’agua na cabeça…..O chafariz havia sido inaugurado e as mulheres estavam exultantes.
Fui recebida com muita alegria. Todos queriam saber das minhas aventuras e minhas amigas queriam se inteirar dos detalhes. A primeira noite passamos em volta da fogueira contando estórias.

Logo consegui com o Manezinho o empréstimo de uma casinha ao lado da sua, que anos depois seria a Pousada Miramar. Depois de dar uma boa ajeitada e caiar as paredes de branco, eu e Mariá mudamos para lá.
Montei um ateliê e comecei a trabalhar. Havia trazido mais de cinco mil pares de pequenos brincos, estilo antigo, banhados em prata. Era só montar e vender. Resolvi ir até ao Rio com meu mostruário e visitar algumas boutiques de bijox.

Receosa deixei Mariá com o pai, não sem antes fazer todas as mulheres da vila me prometerem olhar minha pequena. Joel morava na casa nova do Ricardo Salem. Eu o havia conhecido quando grávida de Mariá e as poucas fotos que tenho da gravidez, devo a ele. Havia recém construído uma casa de sonhos. Toda de madeira, coberta de piaçava, era de uma beleza imensa.

Arrumei minha malinha e enfrentei mais de 30 horas de ônibus para chegar no Rio. Cidade que eu sempre amei e tenho bons amigos. Fiquei hospedada na casa do Sergio, irmão da Bia.

Na primeira boutique que fui, em Ipanema, por indicação de uma amiga, vendi três mil peças de uma tacada só. O dono ficou encantado com minhas pequenas joias e pediu exclusividade. Passei quinze dias trabalhando durante a noite para não incomodar o andamento da casa e consegui entregar a grande encomenda. Recebi uma bolada de cento e cinco milhões de cruzeiros que ao chegar em Trancoso dividi com o Joel, que havia contraído muitas dividas na construção de sua casa e estava todo embananado.

Na véspera de voltar fiquei sabendo que a casa de Ricardo havia pegado fogo. Fiquei muito apreensiva pois havia deixado Mariá morando na casa, junto com o pai. Ironicamente a pessoa que tinha se descuidado e deixado a casa arder em chamas se chamava Pacifico, nome estranho para um incendiário pois houve a suspeita de que foi um descuido intencional,movido a inveja.

Ricardo estava no Rio e voltamos juntos. A casa havia queimado toda. Só restavam escombros negros. Fiquei impressionada com a serenidade de Ricardo. Parecia que a casa nem era dele. Arregaçou as mangas e fez outra mais bonita ainda. E meteu um bom processo no “amigo” invejoso.

A forma que recebeu a notícia ficou registrado nos anais da história Trancosense.

Foi bem assim: Joel, Calé e Dadinho foram para Porto Seguro ligar para o Ricardo que estava no Rio.

Calé ligou e na hora que o Ricardo atendeu, não teve coragem de contar para o amigo o sucedido e passou rapidamente o telefone para o Joel, que foi pego de surpresa .Deu uma gaguejada e falou:
———Oi Ricardo, tudo bem? Olha, eu tenho duas noticias para lhe dar, uma boa e uma ruim. Vou contar a boa primeiro.
——-Sabe os cupins da sua casa? Desapareceram todos!
Ricardo ficou bem feliz. Então Joel disse:
——Agora vai a notícia ruim. Sabe a sua casa? Pegou fogo.